domingo, 9 de março de 2008

A embalagem e o produto



As revelações estão nas entrelinhas...
Veja o Pelé, por exemplo, de pose ao lado do Ricardo Teixeira como o novo garoto propaganda da Copa de 2014. O que quer dizer?

Para as câmeras, trata-se apenas de um acordo entre cavalheiros, uma pá de terra sobre os conflitos passados, tudo em nome de algo maior, a Copa. Mas, para aqueles que não se acostumam a essas demonstrações midiáticas patéticas, a expressão desgostosa de ambos revela que:

- Ricardo Teixeira não deve ter gostado de admitir que "sua" Copa precisava de Pelé, que teria de compartilhar seus holofotes com a figura do Rei, mas calculou que não seria bom para os negócios atrair toda a atenção para si o tempo todo.

- Como pregava o slogan da Copa da Alemanha, é tempo de fazer amigos. Pelo menos para Teixeira, esta é a máxima a partir de agora. Depois de matar no ventre uma CPI que traria à superfície algumas mazelas do futebol nacional, o presidente da CBF reafirma que para organizar uma Copa são precisos "tempos de paz e prosperidade". A paz ele consegue distribuindo afagos e benesses a políticos, empresários e antigos desafetos. A prosperidade é consequência disso tudo.

- Como embaixador da Copa, Pelé será um produto para consumo externo. Essa popularidade global acaba por atestar que Pelé é unanimade lá fora, mas por aqui sua bola não é das mais cheias. O maior jogador de futebol de todos os tempos não consegue no Brasil a aclamação pública que, por exemplo, Maradona tem dos argentinos, Platini dos franceses ou Beckenbauer dos alemães. Por isso, ao invés de protagonista, nosso personagem maior do futebol será uma espécie de marionete de Teixera que percorrerá o mundo atrás do que lhe falta por aqui.

- Se Pelé não quis meter a colher de verdade na Copa, ocupando um cargo executivo - como fizeram os já citados Beckenbauer e Platini - não é porque lhe falta gabarito. Pelo contrário, Pelé é muito bem sucedido como empresário e já foi até ministro de Estado. O que Pelé não quer é ver seu nome ao lado da assinatura de Teixeira em rubricas que poderão lhe trazer constrangimentos futuros. Em outras palavras, na lama da CBF o Rei escolheu não enfiar sua chuteira dourada.

- O comportamento e sorriso amarelo de ambos, por sua vez, demonstra o óbvio: serão seis longos anos de confraternizações para a mídia e o mesmo tempo para lambanças de toda espécie - com dinheiro público ou privado, não importa - encobertas por esta mesma mídia que parece só entender de jogar confetes. De Copa que é bom...

domingo, 2 de março de 2008

Corrupação e futebol, paixão nacional

A Fifa se orgulha de ser maior que a ONU, e seu presidente de ser mais púdico que o Papa. O quartel general da entidade fica em Zurique, na Suiça - terra da pontualiadade e da correção, o que vale para homens e relógios. Apesar de toda a atmosfera de incorruptibilidade que a Fifa e seus seguidores fazem questão de proclamar, denúncias de corrupção que envolvem a entidade começam a surgir, e os valores e nomes envolvidos podem lançar o estilo Fair Play da organização na lama.

Tudo começa com astronômicos valores de contratos de marketing e direitos de transmissão de campeonatos - e não se sabe, ainda, como termina. Segundo reportagem da alemã Der Spiegel, as denúncias de suborno e corrupção envolvendo altos dirigentes da Fifa surgiram em meio às investigações do caso de falência da ISL, empresa de marketing esportivo parceira da entidade. O conteúdo completo da matéria, que tem o sugestivo nome de "Caso de corrupção mancha o futebol internacional", pode ser lida em português no UOL, apenas para assinantes, ou em inglês no próprio site da Der Spiegel.

E o que tem isso haver com a gente? Bem, o teor dos contratos assinados para a exibição de jogos de Copas, no Brasil, não é lá dos mais transparentes. Se lá na Suiça andam fazendo esse tipo de "traquinagem", imagine o que pode se passar lá no Rio de Janeiro, na sede da CBF. As investigações chegaram, até agora, ao dirigente da Confedereção Sul Americana de Futebol; poderia chegar até a brasileira? Quem sabe... Da caixa-preta - ou melhor, caixa de Pandora- que guarda os segredos e maracutais do futebol brasileiro, pode-se esperar coisas de deixar esses amadores da Fifa de cabelo em pé.